BAVIERA
ESQUECERAM DE MIM NOS ALPES! (UM CONTO DA MEIA-NOITE)
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| O Castelo de Neuschwanstein (Foto: Internet) |
Esta pequena história envolve um incidente ocorrido quando do nosso passeio em 27/09/2006 até os Alpes da Baviera, para uma visita ao Castelo de Neuschwanstein. Estávamos hospedados no Hotel Maritim na cidade de Munique naquela ocasião. Na madrugada que antecedeu o passeio, havia sonhado que estava num lugar rodeado por montanhas. A minha filha Fernanda estava no sonho. Lembro que ela apareceu correndo, apavorada, dizendo que algo iria explodir no alto das montanhas. O que aconteceu a seguir é que a explosão significou uma enorme enxurrada de água que veio a inundar tudo o que no caminho existia. Um sonho angustiante.
Naquela manhã, acordei cedo e olhei pela janela para ver como estava o dia. O nosso passeio já estava programado e o mau tempo seria algo indesejável. A minha janela dava para os fundos de alguns prédios baixos, vizinhos ao do hotel. Foi quando reparei que, na cumeeira do telhado de um deles, estavam pousados oito corvos lado a lado, sendo que um nono estava apartado do grupo, como um líder, e este foi o que primeiramente voou. Lembrei que, há muitos anos atrás, li numa daquelas histórias da revista Seleções, do Reader’s Digest, algo sobre o significado do número de corvos vistos por uma pessoa. Não havia como lembrar dos detalhes. Lembrei também do corvo que existe no brasão da família Göller, cujo significado, em heráldica, é de uma ave de presságios, alerta para com os inimigos. Fiquei um pouco apreensiva com estes fatos.

O nosso percurso seria de aproximadamente duas horas até o castelo. A região dos Alpes é muito bonita, e passamos por vários povoados típicos ao longo do caminho. Acompanhava-nos o guia local de Munique, um brasileiro que morava lá há alguns anos. Durante as explicações sobre a história do castelo e a do Rei Ludwig II, seu idealizador, tocava uma música da Ópera de Tannäuser de Richard Wagner, que foi seu protegido. O Rei Ludwig II nasceu em 25/08/1845, no Palácio das Ninfas, que havíamos visitado no dia anterior. Subiu ao trono aos 18 anos. Era filho do Rei Maximiliano II da Baviera e da Rainha Maria, uma princesa da Prússia. Dedicou a sua vida à construção de palácios luxuosos, esmerando-se em buscar nas lendas medievais alemãs, como Lohengrin, Tannäuser e o Graal de Percival, a ilusão perfeita, dentro da qual procurou viver até a sua morte prematura.
O Castelo de Neuschwanstein, em estilo medieval romântico, possui uma vista deslumbrante dos Alpes e dos lagos da Baviera. Foi um dos três castelos construídos pelo Rei entre os anos de 1869 e 1886. Situa-se no cimo de um rochedo e é digno dos contos de fadas, inspirando Walt Disney na sua versão de A Bela Adormecida. Ludwig trouxe Richard Wagner para morar em Munique, compositor este que fez a dramatização musical da saga de Lohengrin – o Cavaleiro do Cisne. Ludwig tomou para si este papel, chegando a fundar a Ordem dos Cavaleiros do Cisne, que seria uma das diversas ordens dos Cavaleiros Templários (estes últimos deram origem à Maçonaria). O monarca foi deposto em 1886, e foi confinado ao Castelo de Berger, próximo ao Lago Starnberg, onde morreu afogado em 13/06/1886, embora fosse um bom nadador.
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| As paisagens dos Alpes da Baviera são lindíssimas |
O nosso ônibus ficou estacionado num vilarejo perto do castelo, com vários restaurantes e lojas de souvenires. Soubemos de antemão qual seria o local de nosso almoço. Junto a este, havia uma bonita loja. Nela, trabalhava uma moça carioca muito simpática, provavelmente pertencente à família dos donos. Seguindo o relato, o nosso guia conseguiu uma carona para o grupo com um conhecido seu que transportava turistas em uma camioneta até a primeira parte do trajeto. Não fomos com o ônibus que normalmente faz este percurso, cujos bilhetes incluem a ida e a volta. Subimos a montanha com o veículo, um tanto mal acomodados dentro da camioneta, através de uma estrada estreita e cheia de curvas até um local que servia de abrigo para embarque e desembarque de turistas.
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| O vilarejo de Hohenschwangau |
Começava a chover. Uma chuva fina, mas insistente. Aliado a esta, fazia frio e uma extensa e compacta neblina cobria o rochedo. Fomos até a Marienbrücke, uma ponte que data do ano de 1866, a 92 metros de altura, sobre uma cascata que corre em um desfiladeiro. Dela poderíamos ver o magnífico castelo, mas a neblina nos impedia de fazê-lo. O guia havia dito anteriormente que, quem não quisesse fazer aquele percurso preliminar, podia ficar no tal abrigo. Depois, o grupo se juntaria para a visita que era com hora marcada. Depois da ponte, fomos até um mirante, de onde não se via igualmente nada. O grupo começou a descer até um local que desconheço, e que me pareceu perigoso, por estar o chão muito escorregadio por causa da chuva e da quantidade de folhas caídas. Assim sendo, achei melhor voltar para o abrigo.
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| Em meio à neblina na Ponte Marienbrücke |
Passou-se o tempo. O grupo não voltava para aquele ponto de encontro. Grupos de turistas iam e vinham e, de repente, fiquei só. Compreendi que o grupo deveria ter ido direto para a visita. E eu não sabia o caminho até eles, nem o caminho exato de volta até o estacionamento do nosso ônibus lá em baixo. O ônibus oficial só levava aqueles que já tivessem comprado os bilhetes anteriormente. Além disso, não sabia falar alemão para convencer o motorista do contrário. Além do frio e da umidade que parecia entrar nos ossos, a fome chegava, pois já era 1 hora da tarde. É difícil descrever o que se sente quando se está só num lugar tão ermo, num país distante e de língua muito diferente da nossa, naquelas condições de tempo nada animadoras e rodeada por precipícios, esperando um escorregão para me fazer desaparecer dentro da densa vegetação... Estávamos longe de Munique. Se lá estivesse, seria fácil voltar para o nosso hotel. A minha própria imaginação me paralisava. Lembrei do sonho, dos corvos... Havia entrado na Alemanha pedindo a proteção dos guardiões da nossa família, sendo que, na Baviera, não faltaria a dos Strasser (alguns de seus membros pertenceram a algumas ordens dos Cavaleiros Templários). Durante a minha estada na Alemanha, acreditava que nada de mal poderia me acontecer...
Lá pelas tantas, subindo pela estrada, chegava o motorista alemão que nos deu carona. Trazia em sua camioneta verde algumas pessoas. Improvisei num inglês de emergência algo como estar perdida do meu grupo de brasileiros, que estava muito frio e se poderia voltar com ele... Ele assentiu, fazendo sinal para entrar na camioneta, já vazia. Deu-me uma ponta de satisfação fazer com que o guia pensasse que eu havia sumido... Chegando lá embaixo, procurei o restaurante que seria o nosso ponto de encontro e a loja anexa em que trabalhava a nossa conterrânea que muito me ajudou nesta hora incerta. Ela até mesmo me reservou uma mesa para almoçar tranqüilamente. Ainda houve tempo para passear e tirar algumas fotos, pois o grupo só chegou pelas 2 horas e 30 minutos da tarde. O mais notável é que, até aquele momento, não havia visto o castelo. Foi quando, olhando em um momento qualquer, em direção às montanhas, lá estava ele, surgindo como que por encanto dentro da neblina, como se fosse um castelo-fantasma.
O guia acabou me encontrando. Soube que ele só se convenceu de que eu não estava junto com o grupo depois que sobrou um ingresso. Uma companheira de viagem já o havia advertido sobre o meu desaparecimento. Ele havia pensado que eu nem havia pegado a carona... Quando já estava na Suíça, liguei para o meu irmão, e ele me contou que havia sonhado, na mesma noite (estávamos a cinco horas de diferença), que estava junto com o nosso falecido pai num lugar onde chovia muito. Depois de um tempo eu teria ficado para trás e desaparecido. O meu irmão ficou preocupado, mas o pai dizia que ele não devia se preocupar, porque eu me sairia bem... Uma incrível coincidência. Em outra noite, sonhei que o abraçava saudosamente.
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| O Castelo, como que por encanto, surge da neblina |
Durante o nosso percurso no território alemão, junto às estradas, não faltaram corvos voando pelos campos e, naturalmente, rondando os milharais que são plantados unicamente para a alimentação animal. O mais curioso, entretanto, foi que, na última cidade da Alemanha que visitamos, Aachen, andando sozinha pelas suas ruas estreitas, um tanto desertas, no intervalo do nosso almoço, um deles veio pousar à minha frente, tão à vontade que pôde ser fotografado por esta desajeitada fotógrafa... Era um símbolo, um significado velado que viera se despedir de mim. Depois da Alemanha, aguardavam-me outros corvos: os de Van Gogh...
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Um corvo solitário pousa no centro de Aachen, na despedida da Alemanha
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| Passeios de charrete para o Castelo de Hohenschwangau |
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| Percorrer a Rota Romântica é um ótimo programa que a região oferece |
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| A Wieskirch na Rota Romântica |
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| O interior da Wieskirch |
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